Bate papo com Cássio ‘Espetacular’ Garcia – por onde anda?

Com 15 títulos catarinenses, 3 títulos da Copa das Confederações de Supercross de 1990 a 1992, 2 títulos latino americanos de Supercross de 93 a 94 e 2 títulos argentinos de 93 e 94, ele se um dos maiores nomes do esporte nos anos 80 e 90 e passou por momentos difíceis, passou por um longo tratamento difícil de uma lesão séria nas pernas sofrida em um acidente em 2007 e graças a Deus hoje está recuperado. Não foi fácil, passamos vários dias conversando porquê são mais de duas décadas de história e carreira, muitas emoções, muitos sentimentos que esse piloto teve, tem e relembrar e revirar toda a sua vida não pôde deixar de se emocionar em muitos momentos, aliás em uma boa parte dessa entrevista, e acaba emocionando a mim que o entrevistava e a quem estivesse ouvindo, e por isso com certeza foi uma das entrevistas mais emocionantes que já fiz. Hoje bati um papo com a lenda vida e ídolo do Motocross brasileiro e sulamericano, Cássio ‘Espetacular’ Garcia. Confira!!

MMXCrossWorld- Boa noite Cássio! Tudo bem? Primeiro vou ter meu momento de tietagem, afinal não é todo dia que consigo sentar para conversar com um dos meus ídolos de infância do esporte! Sou sua fã! Segundo, quero te dar as boas vindas ao MMXCrossWorld. É um prazer e uma honra te receber! 
Cassio – Olá Mariah e todos os leitores, admiradores, fanáticos e fãs de todos os esporte off road. É imensurável alegria está sendo entrevistado por uma fã talentosa, dedicada e incentivadora de suma importância para quem curte esse esporte que é minha eterna paixão, ou melhor falando, é um amor eterno. Com suas palavras descritas na pergunta, já me sinto em casa e privilegiado e quero que saibas que a reciprocidade é verdadeira e sincera. Sendo assim, o prazer e a honra são meus. Espero agradar e poder contribuir com minhas respostas.
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Cássio Espetacular Garcia
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Bicampeonato argentino correndo de KTM em 1994
MMXCrossWorld – Conta pra nós como você entrou no Motocross? 
Cassio –  Na verdade, minha ligação com o motocross foi no final de 1982. Por opção dos meus pais, achando que fosse menos arriscado, eu fiz o veloterra primeiro. Antigamente era uma pista só, era uma pista de motocross que tinha um traçado por fora de motovelocidade. Meu primeiro veloterra foi com uma TT125 da Yamaha no dia 8 de Agosto de 82, em Brusque, na categoria 125 Standard, me classifiquei em 4º lugar! Naquela época eu contava com o apoio da revenda Yamaha, a Aravel Motos. A TT, mas meu grande incentivador Dr Paulo Cesar, tinha uma DT180 e começou a ver as diferentes categorias já para a segunda prova de veloterra que eu participaria, em São José. Eu fiz essa prova no meio das motos importadas. Não lembro se a DT tinha que correr com as importadas ou se eu que me meti de DT de metido no meio. Nessa prova fiquei em 5º lugar. Fiz pouco veloterra, não mais do que 5 etapas, ai sim decidi que o que me chamva a atenção era o Motocross, já de olho na DT180, que o Dr Paulo colocou a minha disposição. Com essa DT participei da Taça Cidade Azul, em Novembro de 82 na cidade de Tubarão. Esse campeonato tinha 4 etapas e as categorias Veloterra, Motocross Nacional, Especial para motos importadas. E cada vencedor de cada vencedor das 4 etapas, o vencedor na soma de pontos, ganhava uma CG 125. Eu ganhei a CG! Ganhei 3 etapas e na 4a fiquei em 2º, mas ganhei a CG que acabei vendendo depois e também a TT para comprar uma YZJ125 paraguaia ano 82, aquelas que tinha o radiador na frente, e então comecei meus treinos no Motocross. Em 83 fui contratado pela Honda, pelo revendedor local aqui de Araranguá, a Dimasa que faz parte do grupo Menegali. Ai entrei definitivamente no Motocross.
1983
Etapa do campeonato catarinense de motocross em 1983, ao lado de Cássio temos o Badeco e a sua direita o Negão e o Márcio D’Ávila
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3 etapa do Skol Supercross de Praia com uma Suzuki RM 250cc – 1993
MMXCrossWorld – E vamos recapitular a sua carreira profissional desde que se profissionalizou até sua última corrida profissional. 
Cassio –Em 83 fui contratado pela Dimasa Honda, então deixei a DT e a YZJ pelas CR. Pelo contrato com a Dimasa, eu tinha um mecânico, um veículo para ir pras corridas, duas CR125 e uma XL250R 83, tudo cedido por eles. Já em 83, eu concorria com grandes nomes do catarinense, já não era mais copa, era campeonato estadual mesmo. Grandes nomes da época como: o Badeco (Vanilton Lobo), que era um piloto de muito destaque e que botava muito medo e ao mesmo tempo me deu muito foco, eu foquei nele e eu aprendi algumas coisas com ele porque estivemos muito juntos, faziamos provas juntos, alguns treinos e trilhas juntos, então o meu negócio era bater o Badeco. O Negão (Dorli Menegaz), o Kiko (Onílio Cidade Filho) que foi presidente da federação. O Kuluka (Amilton Lobo Júnior), irmão do Badeco. Arno Carvalho, piloto que anda até hoje. Paulo Guimarães, que foi de quem comprei o caminhãozinho para levar a família pras corridas junto com as motos. Foi com a Dimasa que conheci meu grande amigo Geraldo Cordeiro, meu primeiro mecânico e que é meu amigo até hoje. Ai começamos o Catarinense, eu fiquei em 3º na 125 e na 250 fui campeão com a XL, em uma grande disputa com Márcio D Avila, que corria com uma MX180 pela Maioria Moto Center. Márcio D Avila era minha disputa direta com a moto nacional. Nas importadas era com o Negão, Badeco, Amauri Junior, Paulinho Guimarães, até meu cunhado Sandro Silveira. E assim foi levando e fui aprendendo. Eu aprendia, aliás aprendo sempre, muito mais com as derrotas do que com as vitórias. Então tentei sempre fazer com que minha concepção fosse dessa maneira. A vitória te alivia, te deixa mais paralizado, que não queres evoluir. Você acha que está ganhando então está bem. A derrota não. Ela te enche de força, de animo e de força de vontade e tu aprende com os erros para não cometê-los novamente. Nem sempre é possível, mas é dessa maneira que fui tentando. Terminei o ano de 83 sendo campeão catarinense com a XL e terceiro na 125. Em 84 continuei com a Dimasa e com as mesmas condições, voltei a ser o campeão com a XL, na 125 fiquei em 2º e na 250 fiquei em 2. Também em 1984, fui o Piloto Revelação do GP do Brasil. Na época tivemos o GP Brasil em Minas Gerais, que não era o GP era o pré GP, vieram pilotos convidados europeus, americanos e de outros países da América do Sul ao lado dos pilotos brasileiros de destaque da época: Moronguinho, Roberto Boettcher, Paraguaio, Angelo Celso, Paraibinha… entre outros. Foi a primeira vez que participei de um campeonato brasileiro, antes só havia participado do catarinense. O campeonato brasileiro foi realizado em dois dias dentro do Autódromo de Interlagos, no sábado eram as 125 e no domingo as 250. Na época eu não tinha 250, só 125 e ainda não era época do Yasuda, era o Siqueira que cuidava dessa parte e eu pedi pra Dimasa me mandar uma CR250 e eles me mandaram 1 mês antes pra eu me adaptar, o que era difícil para alguém em início de carreira. E eu tive a sorte de ter ficado em 3º nas 250. Na 125 fiquei em 6º no geral, deixei pra trás o Badeco. Um iniciante nas 250cc no brasileiro, foi algo sobrenatural porque estava com Paraguaio, Moronguinho, Paraibinha, Roberto Boettcher, Angelo Celsio que na época corria de Agrale, Cláudio Assunção, Cláudio Teixeira, Léo Lopes… Puxa, eu posso estar esquecendo alguns pilotos. Mas eu ficar em terceiro, um piloto privado com apenas 2 anos de carreira… ali tinha pelo menos 6 pilotos de fábrica: Moronguinho, Paraguaio e Cláudio Assunção corriam pela Honda, Roberto Boettcher corria pela Yamaha… E isso deu um impulso em minha carreira e abriu os olhos dos patrocinadores. No final de 84, recebi um convite para ser piloto da Yamaha e outro para ser piloto da equipe gaúcha, Agrale Ipiranga. E eu conversando com meu treinador, Dr Paulo, ele achou mais conveniente eu correr pela Agrale Ipiranga que era uma equipe nova e o que eles fizeram? Contrataram Nivador Bernardi, piloto experiente e lenda do esporte, e Cássio Garcia, piloto revelação. Fechei contrato de 85 e 86 com eles. Participamos do Campeonato Brasileiro de Motocross e do Hollywood de Motocross. A Cagiva que é uma fábrica italiana e a Agrale fez suas motos com a tecnologia deles e tivemos problemas visto que a Cagiva só foi ter 250 em 88 e eu não estava mais na equipe e a gente teve que correr com a WMX125, uma moto muito boa, uma vermelhinha, um motor bom, um freio bom, uma moto que não era a melhor, não era um Honda ou uma de marca japonesa, mas era uma marca italiana muito boa. E como não tinha 250, tivemos que importar e na época era Husqvarna. Então no primeiro ano nós corremos de Husqvarna e no segundo de KTM. E fora isso nós tínhamos a WXT125 para fazer o Hollywood Motocross e em 1986 já tínhamos a WXT200. Eu fui vice campeão do primeiro Hollywood e também fui vice do segundo Hollywood. Ah e em 85 eu participei também do Gaúcho de Motocross e fui campeão daquele ano com a WMX125. Em 1987 já não era mais piloto de fábrica, eu corria por uma revenda aqui de Araranguá, a Cagiva Moto Esporte e participava dos campeonatos catarinense e brasileiro, mas tive grandes provas. Em 1988, eu fui contratado pela equipe Amauri Moto Center, revenda Yamaha de Florianópolis e com eles fazia o Catarinense de Motocross, fiz uma etapa do Hollywood Supercross de Praia (até te mandei um vídeo uma vez lembra?) que aconteceu em Balneário do Camburiú, em Fevereiro, e eu fui campeão dessa etapa. Na época corriam nesse campeonato o Paraguaio, Eduardo Saçaki, Rogério Nogueira, Gene Fireball e vários pilotos de outras partes do Brasil. Eu fui nessa prova com minha 125 e tive a sorte de usar a minha malandragem e conhecimento da areia e vencer a prova. Depois eu fui campeão catarinense na categoria 250 Importada e em nesse ano eu não competia com as motos nacionais. Bom, terminando o ano com o Amauri eu fui contratado pela equipe do senhor Izair Gambatto, a antiga equipe Moto Máquinas que depois virou Gambatto Motos. Quando entrei para a Moto Máquinas, o Márcio D Avila, piloto de Florianópolis, já era piloto do senhor Izair que queria contratar dois destaques, ou seria eu ou o Saçaki, e menos mal que deu certo comigo porque ele é um apaixonado por motos e investia muito dinheiro, comprava equipamentos, tanto que ele tinha eu e o Márcio pela equipe de Chapecó e pela revenda dele e do irmão em São Miguel do Oeste ele tinha o Chumbinho e o Elton Becker. No primeiro ano, em 1989, nós viajávamos todos juntos, mas eu e o Márcio morávamos em Chapecó, e eu treinava no meu sitiozinho, que era do senhor Izair e ele me deu. Eu tinha duas pistas para treinar ali dentro, tinha uma oficina embaixo da casa, tinha academia de musculação. Ou seja, eu vivia moto e treinava moto de manhã e de tarde, a noite fazia academia. E assim foi. Em 89, fui campeão catarinense na 125 e na 250, não corria com moto nacional. Na verdade, na época quem corria com as XL eram o Chumbinho e o Elton. Também fui campeão da Copa das Federações, foi a primeira Copa das Federações. Em 1990 continuei com a revenda da Moto Máquinas e o senhor Izair, com uma estrutura um pouco melhor até, a gente comprou um motor home. Eu fui campeão catarinense novamente nas duas categorias e conquistei meu primeiro título brasileiro de motocross, quando tive um confronto direto com o Nuno Narezzi, Rogério Nogueira, Jorge Negretti e eu consegui esse título na categoria 125. Em 1991, continuávamos na mesma equipe no Catarinense e no Brasileiro. O Chumbinho e o Elton já moravam onde que eu morava, no sítio. Mas ouvi um problema na equipe e o nosso patrocinador cessou as atividades. Isso foi no início de 91, não era nem meados do ano ainda. Eu tinha guardado um dinheiro, comprei duas motos CR e continuei fazendo os dois campeonatos. Foi um ano conturbado, moto fria paraguaia, moto quebrando. Só ganhei a Copa das Federações nesse ano. Fui campeão daCopa das Federações três vezes: 89, 90 e 91. Em 1992, eu comprei uma RM125 e uma RM250, e participava com apoio da Skol nessa época por causa do Skol Supercross da qual fui campeão duas vezes, em 92 e 93. E em 93 resolvi deixar o Brasil por falta de patrocínio. Por mais que tinha patrocínio da Skol até Fevereiro quando acabou o Skol Supercross, eu resolvi me aventurar e ir participar do Latino-Americano. Fiquei fora do Brasil 93 e 94. Retornei em 1995 para a cidade de Sinop, no Mato Grosso, fazia o campeonato da Copa Norte (Rondônia, Roraima, Mato Grosso) e também fazia etapas do Campeonato Mato grossense e fiz duas etapas do brasileiro. Não foi um ano muito bom pra mim porque eu vim com um problema porque mandaram os pilotos brasileiros embora da Argentina, quando não deixavam mais os pilotos estrangeiros participares. Voltei com gesso no punho, me machuquei em Carlos Paz, que é perto de Córdoba. Já estava participando do Campeonato Argentino de Supercross que já estava começando, era Janeiro e Fevereiro e em Fevereiro eles resolveram mandar a gente vir embora. E em uma etapa lá em Carlos Paz, no treino eu sofri uma luxação no pulso direito e quando me levaram no hospital, fizeram um raio x e viram que não tinha quebrado, eu fiquei feliz, mas era pra eles terem feito uma redução, eu tive o lunar e o semi lunar, um dos dois subiram no outro, não lembro mais, mas era pra terem feito a redução antes de colocar o gesso. Eles colocaram o gesso sem redução e eu vim para o Brasil com contrato fechado já com a Sinop, dizendo que era uma simples luxação e quando tirei o gesso, o meu osso tinha necrosado e tive uma série de problemas, uma cirurgia muito grande no pulso para eu ficar três meses parado, então eu fiz corridas com pulso quebrado, largava mesmo com a mão estragada, sem força, não tinha força pra segurar o guidão. Eu tive que fazer a primeira etapa do brasileiro assim para depois fazer a cirurgia, para depois esperar a recuperação, corri algumas etapas com o gesso para não perder ponto. Foi bastante atribulado meu ano de 95, inclusive não me pagaram o que tinham que pagar e vim embora com os pés queimados. Sofri uma queimadura de primeiro e segundo graus nos dois pés lá em Sinop e tive que voltar de avião. Fretei um aviãozinho para chegar até Cuiabá, de Cuiabá peguei um desses vôos normais e cheguei em Curitiba e fui direto para o hospital de queimados onde fiquei internado dois meses e meio. E assim acabou meu ano de 95.
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Campeonato Brasileiro em 1986
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Campeonato Hollywood de Motocross em 1985 com uma Agrale WXT 200
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Juiz de Fora, MG 2003 corria pela equipe Honda/Mobil/Pirelli/ASW/Scott/Dimasa Honda meus ultimos 2 títulos de campeão brasileiro foram com eles agradeço muito ao mestre Wilson Yasuda
MMXCrossWorld – Até hoje, você é um dos poucos pilotos brasileiros que tiveram uma carreira fora do Brasil, e muito bem sucedida. Conte pra nós sobre sua carreira internacional.
Cassio – Bom, vou começar falando dos GPs do Mundial de Motocross que participei. O primeiro mundial que participei foi em 88 quando era da equipe Amauri Moto Center e eu fiz parte da equipe do Brasil, com o senhor Nivanor Bernardi como chefe de equipe, foram também os pilotos Alvaro Cândido Filho (o Paraguaio), Eduardo Saçaki, Marco Lúcio, e é mais ou menos que eu lembro. A etapa aconteceu no circuito de Cosquín, na província de Córdoba, eu briguei muito com Tommy Rios, um piloto peruano de muito destaque naquela época, também era novo, na época tinha 17 anos. Eu tinha 18 e eu fiquei classificado na geral em 17º lugar e fui o melhor piloto latino americano classificado. Depois se repetiu o GP Brasil em 89, 90 e 93. Em 1985, depois de ter fechado  meu primeiro contrato como piloto oficial de uma equipe de fábrica, a Agrale Ipiranga, como luva de contrato eu ganhei dois meses nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia. Fui com o piloto carioca Marcelo Repetto porque ele tinha mais experiência e conhecimento por ter ido outras vezes pra lá e era a primeira vez que estava indo. Chegamos lá em Los Angeles, alugamos uma van e cada um comprou uma YZ 2 tempos zero do ano de 85. Ficamos dentro de um carro, em campings e as vezes na casa de algum conhecido. Treinamos muito em Indian Dunes, Carsbad e ficamos um tempo na casa do campeão Donnie Hansen, alguns dias acompanhando ele no seu dia a dia, cursos, alimentação, preparação física, técnicas de pilotagem, assistindo vídeos… Também fomos assistir a 1a etapa do SX no Colliseum de Loas Angeles e depois fomos as etapas de Anaheim e de San Diego. O propósito desta viagem era se aperfeiçoar, aprender novas técnicas andando no Supercross, que era novidade no Brasil ainda. Fiz algumas corridas não na categoria profissional e sim na intermediária e tirei dois primeiros lugares em Indian Dunes. Visitei a representante da CAgiva na Califórnia, a fábrica da JT Equipamentos. Após o curso do Hansen, fiz outro com Gary Semics. Em 89 voltei aos EUA em busca de equipamentos, assiistir a etapa do SX em Tampa e Las Vegas e treinar com as feras. Naquele ano encontrei na pista de Indian Dunes com Michele Rinaldi e Eric Geboers, duas lendas do motocross mundial. E em 1990 foi a última visita que fiz aos Estados Unidos e sempre que ia lá fazia treinamento nas pistas de supercross sempre em busca de me aperfeiçoar. Em 1990 também fui o melhor piloto brasileiro na etapa do Pré Mundial em Campos do Jordão, volto a falar que fui Piloto Revelação no Pré Mundial de Belo Horizonete em 1987. Em 1993 fui viver e competir na Argentina até o Fevereiro de 1995, quando a CAMOD (Confederação Argentina de Motociclismo) acabou com a participação de pilotos estrangeiros naquele país. Em 93 fui campeão argentino de Motocross, vice campeão argentino de Supercross, campeão Latino Americano de Supercross e era para ter sido campeão Latino Americano de Motocross pois venci a primeira etapa em Canelinha e na segunda e última etapa precisava de um 12º lugar na 3a e última bateria do dia. E com problemas burocráticos com  a ULM (União Latino Americana de Motociclismo) e com a CAMOD, onde pilotos deles eram meus maiores adversários. Eles competiam pela Yamaha e por uma sacanagem, mudaram os horários e eu não pude largar na última bateria, com isso perdi o meu título de campeão latino americano, no tapete né, para Pedro Gonçales que era venezuelano que corria pela Yamaha. Os presidente da ULM e da CAMOD também eram funcionários da Yamaha em seus países. Em 94, eu fui bicampeão latino americano de Supercross, bicampeão argentino de Motocross. Eu não quis participar do Latino de Motocross e no Argentino de Supercross eu fraturei o punho e fique em quarto lugar. Em 1999 eu participei de uma prova internacional na cidade de Barracas de Maipu, província de Mendoza, a convite da marca americana Husaberg, com uma 510cc 4 tempos. Infelizmente não lembro como terminei essa prova. Os efeitos positivos da minha carreira internacional me renderam algumas homenagens. A primeira no Sheraton Hotel, onde recebi uma homenagem do então presidente da Argentina, Carlos Menem, na qual todos os periodistas indicam três atletas para cada esporte, foi uma festa magnífica e eu fui um dos indicados de destaque do motocross daquele país. Também no mesmo ano, em 1993, no Brasil, eu recebi a Comenda do Mérito Desportivo do Governador do Estado de Santa Catarina, na época senhor Paulo Afonso. Eu recebia, eu achava até meio engraçado, eu recebia a carta por eu ter sido Comendador do Esporte, e recebo até uma carta como Ilmo Ilustríssimo Senhor Comendador Cássio Roberto Garcia. Eu ria porque eu não via tanta veracidade desse prêmio que hoje admiro bastante, mas comendador, eu pra mim tirava como ‘comendo a dor’ porque piloto de motocross é mais um menos isso né (risos).
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Salto morro abaixo, com umas canaletas gigantes no GP Argentino de Motocross em 1988 em Cosquin, Córdoba
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Em 1999, quando foi convidado pela fábrica Husaberg para pilotar uma 610cc 4T em Barracas de Maipu.
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O Espetacular recebendo uma homenagem da Romagnolli Promoções e Eventos as lendas do Motocross Brasileiro que aconteceu no GP do Brasil 2013.

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Da direita para a esquerda: Cássio ‘Espetacular’ Garcia, Elton Becker, Milton Chumbinho Becker, Wellington Valadares, Cristiano Lopes, Rafael Ramos, Jorge Negretti, Roque Colman, Roberto Boettcher, Eduardo Saçaki, Álvaro ‘Paraguaio’ Cândido Filho e Gilberto ‘Nuno’ Narezzi na Corrida dos Campeões no GP Brasil no Beto Carrero em 2013.
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Cássio sempre teve um companheiro e conselheiro, seu pai. Na foto Cássio escuta os conselhos do pai antes da largada da 125cc do GP do Brasil de Motocross em 1993.
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Um balé das motos em uma etapa do Campeonato Argentino de MX 1993 em Córdoba – Cássio #233
MMXCrossWorld – Qual momento mais te marcou sobre sua carreira?
Cassio – (Neste momento, ele pediu uma pausa antes de continuar, nitidamente emocionado). Estou fora de forma de entrevista (sorriso emocionado). Entrei fundo na minha vida e no esporte que fiz, estou sentado aqui diante de muito material, fotos, troféus, matérias, revistas e isso mexe muito comigo emocionalmente. São tantos momentos que não consigo achar o momento certo. Posso explicar o que esses momentos significam para mim? (“Claro que sim!” respondi e a partir deste ponto Cassio falava com voz embargada e trêmula, com água minando nos cantos dos olhos.) Como eu disse é muito difícil responder porque foram muitos. A vida de um campeão, de alguém que é muito esportista, esse esportista vai ter que ir subindo escadas, subindo os degraus. Comecei pela Copa Sul, pela primeira vitória em 82, a que eu ganhei a CG, foi muito importante. Foi muito marcante para mim porque comecei em 82 e já no final de 82 eu ganhei uma vitória. Me marcou bastante! Mas não contente com isso, eu queria ser campeão catarinense. Então eu fui campeão catarinense em 83 (suspirou fundo e segurou as lágrimas) e depois voltei a ser campeão catarinense em 84 na categoria nacional e estava me aproximando cada vez mais dos verdadeiros campeões nas motos importantes, que eram o Badeco, o Negão, o Márcio D Avila, o Mido, o Kuluka…pilotos de destaque em Santa Catarina. O meu foco era o Badeco porque ele era o piloto mais rápido, o mais técnico, com o melhor equipamento e que me dava muito medo (risos) quando ele chegava nas pistas. Mas todo esse medo não se interiorizou, o que esse medo me dava era forças para eu tentar superá-lo. Daí eu fui e fui e queria ser campeão catarinense de moto importada. E só fui ser campeão catarinense com a moto importada em 84 e daí consegui bater o Badeco. Em 85 fui campeão gaúcho, também nunca tinha sido campeão gaúcho. Em 86 eu fui campeão da Copa Paraná. Então é assim, vai vencendo etapas na vida. Para eu vencer meu primeiro campeonato nacional, foi em 89 (Ai a emoção tomou conta e as lágrimas caíram) no Supercross de Praia em Balneário Camburiú. Ai em 90 eu ganhei a Copa das Federações, que é um título nacional também. Em 91, eu voltei a ganhar a Copa das Federações e fui campeão brasileiro de motocross em 90, que também foi uma disputa muito acirrada com Nuno Narezzi e Rogério Nogueira e eu consegui esse título. Voltei a ser campeão brasileiro em 92 e 93 no Skol de Praias. Chegou uma hora que eu não queria mais, chegou em 93 eu já tinha 7 títulos de campeão brasileiro e eu não queria mais ser campeão brasileiro, eu queria ser campeão latino americano. E eu fui atrás da minha luta. Mesmo com pouco patrocínio, me desloquei para a Argentina e comecei o latino americano e o argentino de supercross. Viajei a América do Sul fazendo contatos e corridas e voltei ao Brasil. Depois de 15 dias que voltei ao Brasil, recebi uma oferta de contrato da Kawasaki e voltei para a Argentina em 93 e foi o melhor ano da minha carreira como piloto. Equipamento, cidade, cultura, tudo diferente. Pra mim foi ótimo, maravilhoso. Sou grato até hoje. Então, preciso resumir esses meus melhores momentos e dizer que tive meu melhor ano profissional e ao mesmo tempo falar sobre uma coisa que valorizo muito, a escada da vida, da vida de um esportista que gente começa com um campeonato nacional, estadual, provincial as vezes. E com isso eu ia buscando forças, aonde fui sozinho fazer o Latino Americano e conquistei o Latino Americano.
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Conquista do bicampeonato Latino Americano de SX em 1994 em Sinop-MT, competindo por uma equipe Argentina.
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Léo Dias, Pedro Bernardo Raimundo”Moronguinho” e Cassio em uma etapa do Brasileiro de Motocross em 2004.
MMXCrossWorld – A vida de corrida é sempre na estrada, acampar nos boxes. E isso sempre leva uma convivência com os outros pilotos e equipes nas beiras das pistas e isso gera histórias que só quem estava ali presenciou. Tem alguma história de bastidores pra contar pra gente? E as amizades que você fez ao longo dos anos?
Cassio – Em primeiro lugar eu posso falar que foram grandes e verdadeiras as amizades que fiz e tenho até hoje em relação ao motocross porque o motocross foi a minha vida e não seria diferente. Quanto a convivência com outros pilotos, eu não tive problemas com nenhum piloto. Alguns toques, algumas coisas normais no esporte a gente tem, mas eu tive e tenho convivência ótima com todos eles. Me dou muito bem com Jorge Negretti, com Rogério Nogueira, com Nuno Narezzi… Com o próprio Eduardo Saçaki, temos um relacionamento um pouco mais restrito por ocorridos da parte dele que me derrubou e não veio se retratar e isso me me chateou muito. E por ele ser uma estrela, que nem eu sou, então as vezes o orgulho de um ou de outro pode atrapalhar o relacionamento, mas continuamos amigos e nos falamos e é assim com todos eles. Eu sempre fui uma pessoa que sempre fui muito ético nas pistas, mas quando tinha que ser ignorante e grosso, eu era. Então, eles me respeitavam e eu respeitava eles. História de bastidores? O que me marcava nos bastidores é que eu tive a fama de louquinho, de cai cai, de tudo isso. Mas chegou uma época que eles me usavam como o abre trilha. A gente sempre faz uma volta na pista, ou até mais de necessário for porque depois dos treinos tem voltar a andar na pista de novo para ver as trilhas, e a gente fica na dúvida se tal salto se podia fazer duplo ou triplo. E nessas dúvidas, eu era comentado como ‘deixa o Cássio entrar na pista.’ ‘O Cássio é o abre trilha.” Então isso me marcou muito porque na verdade eu era o abre trilha. Eu era muito arrojado, então eu ia e fazia um salto que era triplo, eu mandava quádruplo. Daí eu abria a porta para eles, para eles tentarem ou não. Mas chegou uma época que eu fiquei um pouco mais experiente e acabei com essa abre trilhas. Eu ia e via escondido, eu fazia e me preparava sabendo que eu podia fazer e deixava para fazer na corrida.
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O Espetacular mandando um triplo e passando por cima do argentino Federico Villagra #1 em uma prova do Argentino de SX.
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Penúltima etapa do campeonato argentino de motocross, em busca da consagração de Bi campeão argentino de MX 1994 no circuito El Rancho General Rodrigues na grande Buenos Aires
MMXCrossWorld – Em 2007, você sofreu um acidente de trânsito que mudou sua vida de cabeça para baixo. Mas graças a Deus hoje você está completamente recuperado. 
Cassio – Meu acidente aconteceu no dia 24 de Novembro de 2007, foi um acidente de trânsito com uma Biz 100. Eu já havia jantado com meu pai, sua esposa e um casal de amigos e por volta das 22 horas eu resolvi ir pra casa. Estava com meu pai em Araranguá e eu morava na praia Morro dos Conventos que fica a 12km de Araranguá, sempre gostei de morar na praia. E naquele dia caiu uma chuva fraca, estava chovendo. Passei num posto para abastecer e quando sai em uma via dupla em direção a praia, a 300 metros do posto havia um carro parado do lado esquerdo, eu passaria para o direito, e um outro carro atrás que eu não tinha visto. No momento em que eu estava fazendo esse cruzamento, que eles estavam parados que eles queriam entrar na rua 15 de Novembro, o carro de trás saiu, então eu não tive nem como visualizar uma reação, a minha reação foi eu quebrar o carro porque não tive outra reação. Eu to olhando com chuva, a noite, de capacete aberto sem queixeira, a viseira estava levantada por causa da chuva que pega na viseira, ela atrapalha um pouco a visão. Então eu estava com a chuva nos olhos, com capacete aberto e olhando o carro que estava parado. Eu não tinha desenvolvido nesses 300 metros, mais que 70km por hora. E o carro de trás foi quem saiu, não sei se ele achou que o da frente não estava esperando. Como ele saiu, eu entrei nele. Não tive outra opção. Ele só me deu o paralama direito, na hora que ele colocou o paralama direito, eu parei no paralama dele. Por quê eu não tive reação? Porque não tinha outra coisa, eu simplesmente quis me segurar no guidão da moto, achando que eu ia quebrar o carro. O meu pensamento foi esse, é claro foi tudo muito rápido, não da pra pensar muito. Eu segurei tão forte no guidão para bater no carro, que eu tenho um problema acromioclavicular das épocas de corridas, eu tenho os ligamentos cruzados do ombro esquerdo lesionados, como me pressionou muito, o ombro esquerdo se deslocou e eu fui de peito na moto e com a velocidade fui lançado pra cima e quebrei as pernas. O guidão da minha moto eu botei todo pra frente, a Biz quebrou a carcaça do motor pra você ver o tamanho da batida, da pancada, foi seca. E não me lembro o carro que foi, depois fiquei sabendo que era um Gol de um cara que pegou emprestado do tio e ele e a esposa estavam no carro e ficam desesperados e em choque dentro do carro. Eu saltei por cima do carro e cai em uma poça de água, aquelas poças de água que ficam escorrendo pelo meio fio, e cai com o capacete aberto tomando chuva. Então, eu já o chamava de anjo, hoje eu já conheço esse anjo, ele é pastor da igreja que eu frequento, ele morava na esquina e fui conhecê-lo agora, esse ano que entrei na igreja e ele me falou desse episódio. Foi ele, o que ele fez….eu estava simplesmente todo quebrado, sabe o que é uma pessoa que teve múltiplas fraturas nas pernas, ou seja, eu fraturei cada fêmur em 3 lugares, as tíbias e fíbulas, fraturei 3 vezes em cada lado. São 12 lugares nas pernas, só que a minha perna direita foi lançada pra trás e o meu calcanhar veio bater no meu pescoço, ela girou tanto que rompeu o nervo ciático, os ligamentos cruzados do joelho e a artéria femoral, eu perdi muito sangue e entrei em choque. Quebrei costelas, o ombro…Eu cai desmaiado, inconsciente, quem me viu caído me viu morto. Eu não vi quem me tirou da água. Eu nasci de novo (Mais uma vez, a emoção toma conta para contar esse momento). Ai você olha como é Deus… Deus tem um propósito muito grande pra mim. Ai veio o resgate dos bombeiros, as pessoas chegavam perto. Eu não vi nada, eu só sentia gente mexendo em mim. E eu dei meu nome pra eles, dei o telefone do meu pai pra eles, só perguntei pra eles se eles eram do bombeiro e pedi que me levassem pro hospital senão eu ia morrer. Me levaram para o hospital, me levaram pra emergência, tomei muito sangue, várias cirurgias e de madrugada, resolveram não amputar a minha perna. Foi tanta coisa, que não tem explicação. Foi um milagre. Foi uma nova vida que recebi. Fiquei com a perna mais curta e fiquei com o movimento do pé um pouco alterado, eu tenho dificuldade as vezes de sensibilidade para a frear a moto, é que eu tenho notado com as motos mais potentes, com a CRF230 que tenho andado não me dá esses problemas, mas com as mais potentes eu tenho dificuldade para frear demais e ela apaga o motor porque freio demais e como fiquei com as pernas curtas ficar em cima da moto e a moto sem partida elétrica fica difícil pra mim.
MMXCrossWorld – Nesse período de pouco mais de uma década que você passou se recuperando, você chegou acompanhar os campeonatos brasileiros? E internacionais? 
Cassio – Bom, pouco. Não vou dizer que nada porque é uma paixão, um amor né. Mas eu me sentia muito mal. Psicologicamente, mentalmente, fisicamente… é muito difícil para um profissional de quase 30 anos de motocross, sofrer um acidente e ficar aposentador por invalidez permanente. Invalidez é uma palavra muito forte. Inválido… Isso não combina comigo, não tem nada a ver! Mas é uma coisa que tive que superar e estou superando, estou superando porque estou mostrando com meu testemunho de uma vida em Cristo Jesus, sendo uma outra pessoa. Eu acho que Deus tem um propósito pra mim e eu tenho certeza que Ele tenha só coisas boas porque Deus é amor. Então, eu posso dizer que eu mais fiz nessa época, eu acompanhava sim, o motocross por paixão, mas pouco me interessava pelo estado físico em que me encontrava.
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MMXCrossWorld – Você pegou uma época do Motocross brasileiro considerada a Era de Ouro do esporte. Como você compara aquela época aos dias de hoje?
Cassio – É verdade Mariah, eu tive a sorte de competir nos 80 e 90, a época de ouro, ao lado de pilotos talentosos, experientes, focados e disciplinas. Todos eles com certeza foram espelho para a minha carreira e foram exemplos de profissionalismo e dedicação. A partir do exemplo deles, nos meus olhares atentos a cada manobra, as suas técnicas e também nos seus erros, todos me serviam como base que qualquer piloto precisa ter como referência. Tenho muita gratidão por isso! Na época se trabalhava muito o conjunto homem e máquiva. Tinha que preparar-se fisicamente, mentalmente para haver um equilíbrio e uma sintonia, que comparo a um jockey e seu cavalo, onde a necessidade de saber preparar e acertar o seu cavalo de ferro é a chave para o sucesso. Tem que se conherem bem e estarem bem ajustados de forma que se tornem um só elemento, onde um completa o outro. Tudo isso requer tempo, treinos, experiência e muito conhecimento assim consegues com tempo harmonia, equilíbrio e velocidade. Não há como comparar as duas épocas porque as motocicletas, os acessórios e equipamentos evoluíram muito. A tecnologia deu mais segurança, mais ao mesmo tempo acomodação e desculpas. Para resumir em poucas palavras, para um bom entendedor basta: tiraram a faca dos dentes e as mãos grudadas dos punhos. Menos agressividade, confiança, foco e determinação porque facilitaram demais… as motos e a tecnologia. Hoje é tudo chipado, não tem o trabalho que a gente passava de acertar um carburador, correr 40 minutos não sabendo se vai dar o certo o tanque da moto, tem que ter todo um conhecimento e eu na verdade, antes de ser piloto, eu fui mecânico. Por isso que eu falo dessa parte que é um conjunto só: eu e a moto temos que ser um só. Eu tenho que estar bem em cima dela e ela tem que estar bem acertada para a minha tocada, que é a tocada que eu preciso para determinada pista, cada pista tem uma tocada diferente. Meu testemunho diz e prova que o motocross brasileiro parou de evoluir há mais de 25 anos. Eu dou dois exemplos: em 1993 fui o melhor piloto brasileiro e latino americano classificado no GP Brasil na Praia da Enseada, no Guarujá, no qual na soma das três bateris de 25 minutos mais duas voltas fiquei na classificação geral em 11º lugar na MX2 e o campeão Jorge Balbi acredito que em 2008 ficou na 10a colocação. Se passaram mais de 25 anos e nenhum brasileiro baixou essas colocações. Quero aproveitar e parabenizar o piloto Enzo Lopes pela sua até então inédita contratação de um piloto brasileiro para compor uma equipe de fábrica para participar do AMA Supercross e Motocross.
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MMXCrossWorld – Até os anos 2000, a carreira profissional dos pilotos pareciam durar mais do que as de hoje. Hoje vemos garotos de 20 anos encerrando a carreira. Por que você acha que isso acontece?
Cassio – Eu acho que não sou a pessoa perfeita pra isso, mas eu sinto que é a falta de apoio, falta de incentivo. Não só de patrocinadores, como pelas famílias. Falta de respeito com os próprios pilotos, condições de pistas, condições de patrocínios… isso é uma falta de respeito… poucos patrocinadores, falta também de amor dos pilotos de fazerem aquilo com amor. Tudo que tu faz com amor, não é trabalho, é lazer, é diversão. Então trate de fazer tudo com amor porque com amor vem a disciplina, vem a coragem e a coragem o que é? Ausência de medo e a pessoa para não ter medo, precisa ser um pouco mais corajosa. Estou falando de amor, da entrega, da fidelidade com o esporte, com o que ele está fazendo, do porque ele está fazendo. Por quê? Porque estamos falando de um esporte radical, um esporte que teve um aumento de mortes muito grande dos anos 90 pra cá. Desde a época que morreu o Paraibinha, que foi o primeiro acidente fatal piloto que presenciei na minha carreira.Ele era uma pessoa carismática, de um coração muito grande, um baita amigo e companheiro de pista, um talento que a gente perdeu e é uma pena que ele tinha acabado de casa. E é ai que acho que entra a parte do apoio da família. Muita gente hoje já vê o esporte como um esporte de risco porque nós perdemos um fenômeno, Marronzinho, outro fenômeno, Swian Zanoni. Dois baita profissionais, pilotos de grandes fábricas, pilotos de muita raça, muita força, muita determinação, muito trabalho, muita técnica, de tudo… e por fatalidades e erros. O erro que é uma coisa que infelizmente dentro do Motocross pode levar a pessoa ao óbito. E eles tiveram a má sorte de falecer naquilo em que amam fazer. Por isso que a minha gratidão triplica, tive a sorte de não morrer dentro das pistas. Eu tive a sorte de não morrer em dois acidentes de moto que tive e só tenho a agradecer. E tiveram outras mortes também que eu fiquei sabendo e isso dificulta muito, até os próprios patrocinadores. As federações também tem culpa disso. Acho que precisa fazer uma Lava Jato dentro das Federações, na Confederação e nos organizadores porque sobra toda vida dinheiro para todos eles. Os organizadores e presidentes de federações têm Audi, BMW, Land Rover… e nós pobres coitados temos uma Fiatizinha, o outro tem uma caminhonetezinha. Olha, vamos organizar porque o novo governo vai fazer isso dai. É uma cara nova, renovação. Temos que renovar os presidentes das federações, apoiadores, organizadores e eu estou ai para ajudar!
MMXCrossWorld – Vamos falar agora sobre o seu ano de 2018. Conte-nos como foi e as novidades.
Cassio – Na verdade, eu comecei o ano de 2018 ainda sobrevivendo. É o termo que uso porque não estava mais vivendo, eu estava sobrevivendo. Eu comecei a viver novamente a partir de Junho de 2018. Até então por alguns anos me faltava, sinto a falta ainda, só que agora estou melhor, eu me arrumei. Eu já arrumei que essa falta não vai mais existir, ela vai estar presente na minha vida de novo! Não como piloto, mas sim como lazer, ajudar alguém a fazer, poder colaborar com o esporte. 2018 foi bom pra mim a partir de Junho, a partir daí eu decidi que estava bom e que ia conseguir, mas precisava confirmar isso. Então realizei uma viagem para Buenos Aires em Julho. Eu queria colocar os equipamentos e subir na moto para saber se eu podia subir lá, onde eu fiz os meus últimos anos do motocross, com aquele pessoal que me apoiaram muito, que foram meus mecânicos, meus companheiros de equipes, gente que corre o Dakar hoje, gente que fez parte da mesma equipe que eu e hoje fazem o Dakar. Levei minha filha do meio pra ela conhecer Buenos Aires. Chegamos lá e me emprestaram uma YZF250, levaram equipamentos completos, até braces. Não foi muito bom lá na Argentina, dei um curso lá, andei três vezes nos 12 dias que fiquei lá. Mas a maior notícia veio quando voltei ao Brasil! Recebi um convite de um piloto e amigo das antigas, Leonardo Motta, para acompanhá-lo em dois treinos aqui na nossa região e resolvi fazer um teste drive já que era uma moto que eu gosto muito, a CRF230, gosto da ciclística, dos freios, só deixa um pouco na potência do motor, o que que na verdade ali naquele momento não me interessava e sim a segurança que esta moto me transmite. Então a novidade é que voltei a subir na moto! Foi a maior felicidade da minha vida! Vendo as fotos parece que estou brincando com a moto! Já não era mais como foi na Argentina, lá eu estava brigando com a moto, aqui eu estava brincando com a moto. Hoje já ganhei alguns equipamentos e joelheira da Mormaii, estou em busca de mais ajuda. Resumindo, comecei a reorganizar a minha vida a partir do meio de 2018 pra cá, eu estou vivendo um novo Cássio há um pouco mais de 12 meses. Mas só fui aceitar esse novo Cássio, da maneira que ele está, com as dificuldades físicas que ele tem, as dificuldades financeiras que tem, não tem mais automóvel e hoje anda de bicicleta, da maneira que não pode mais ter o padrão de vida que tinha antes, mas de outra maneira e estou vivendo essa outra maneira com muito amor, com muita vontade, com muita gratidão, com muita dedicação e sempre muito espiritualizado. Sempre andando pelos caminhos do bem.
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“Foi a maior felicidade da minha vida!” – Cássio brincando com a CRF230 após 13 anos sem subir em uma moto.
MMXCrossWorld – E 2019? Quais os planos de Cássio Garcia?
Cassio – Agora no início de Fevereiro estarei embarcando para a Argentina para voltar a treinar e talvez para dar início aos treinamentos a prova de Glen Helen. Tudo vai depender da minha condição. A minha vontade é participar do mundial de veteranos. Estou determinado a voltar a andar de moto, é uma coisa que me faz uma falta imensa! E cabeça vazia é oficina do diabo. Todo mundo precisa ter uma obrigação. Estou aposentado para competir, mas ainda posso subir numa moto para ensinar uma técnica, dar um saltinho ou outro, mostrar como se freia, como é o posicionamento correto, cobrar deles. Então em Fevereiro, estou indo pra Argentina para presenciar duas provas internacionais que são o Enduro del Verano e o MXGP da Argentina.Comprei passagem para três meses, mas não sei se ficarei três meses porque tenho uma proposta de um fazendeiro lá que tem uma pista para que eu fosse pra lá e ficasse na casa dele. Ele os dois filhos tem seis KTM, oficina bem montada, estrutura como tudo do melhor na fazenda com casa dele e casa de caseiro, mas tudo isso será conversado lá e ao vivo no Enduro del Verano. Estou indo para visitar meus amigos de Córdoba, vou conversar com ele e também para dar cursos. E também estou escrevendo o livro da minha história, minha autobiografia que em breve será publicada. Vou te avisar quando estiver tudo pronto para lançar.
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Ao lado da filha Sofia em Buenos Aires em 2018
MMXCrossWorld – O que você gostaria de dizer para a garotada do motocross de hoje?
Cassio – Bom, o que esse ‘véio’ vai falar? (risos) Eu posso usar uma frase que com certeza devo ter lido em algum lugar, mas que sempre usei na minha carreira. O que me chamou muito a atenção e eu já ouvi alguns pilotos falarem isso, mas eu sei que uso isso desde os anos 80. Ela diz: “O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.” Bom e o que eu posso dizer para eles é: fazer o seu melhor, não porque alguém vai aplaudir, mas para que você cumpra sua missão. Que você consiga realizar todo o seu potencial porque você é uma pessoa especial que merece ser feliz e se realizar. Que você descubra que os seus talentos são uma dádiva, os maiores presentes que você poderia receber. Portanto, faça por merecer! Evolua sempre! Procure se aprimorar para ser digno de suas ações. Faça sempre o que você achar correto, mesmo que naquele momento isso lhe crie problemas com os outros, mesmo que as pessoas não entendam. Preocupe-se mais com a sua consciência do que com a sua imagem! A consciência é o que você é, a imagem é o que os outros pensam de você. Se você seguir a sua consciência, as pessoas perceberão que você é um herói de verdade. Que Deus abençoe a cada um de nós, nosso caminho de realizações! Com carinho do campeão Cássio ‘Espetacular’ Garcia e votos de muita saúde, sorte e sucesso na carreira de cada um!! Muito obrigado!
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MMXCrossWorld – Cássio, mais uma vez muito obrigada por ceder esse tempo para conversar. Você é sempre bem vindo! As portas da casa estão abertas! Desejo a você e sua família que 2019 seja repleto de felicidades e realizações! Agora o espaço é todo seu!

Cassio – Muito obrigado em primeiro lugar ao site MMXCrossWorld e primeiramente a você Mariah, grande amiga, incentivadora e apoiadora do esporte. Gosta muito do esporte, de coração. Nos divertimos muito nessa entrevista. Nos divertimos e nos estressamos também (gargalhadas), mas normal. Eu estou um pouco fora de forma.  Eu queria só agradecer muito por poder estar levando aos leitores, aos fãs, aos fanáticos e admiradores do esporte off road e estar divulgando um pouco da minha história, do meu regresso que estou regressando nem como piloto profissional, mas sim por querer agregar algo a mais ao esporte como treinador, dando meus cursos. Como disse, estou indo passar uns meses na Argentina e depois voltarei ao Brasil para me dedicar a dar cursos ou senão trabalhar dentro de alguma equipe… Ou seja, eu tenho que viver aquilo que eu fiz por quase 30 anos. Eu não gostaria de sair dessa paixão não. Eu quero desejar a todos os leitores um ótimo, um feliz, próspero, abençoado 2019! Que vocês tenham muitas realizações e conquistas! Felicidades! A felicidade… coloque a felicidade ao seu alcance e saboreie a mais esplêndida conquista, a maior da nossa vida! A gente tem que ter esse privilégio porque o passado é algo que não existe mais, já se foi, serve apenas como referência. Da mesma maneira, o futuro não existe também pois quando ele passar pela nossa presença, você está ausente pensando no futuro. Isso acontece com muitas pessoas que realmente não vivem porque estão ausentes da vida que passa na sua frente. E eu penso dessa maneira. O presente é uma dádiva de Deus, é o momento que espera ser vivido! Por isso que falo a todos vocês leitores e a mim mesmo: por isso não pense, faça! Por isso não pense, viva! Por isso não pense, curta! Não é uma discussão filosófica falar sobre a importância de se estar no presente vivendo o momento. É questão de inteligência porque não existe outra forma de viver realmente. Não fique nunca a espera de momentos célebres porque célebre é o momento! Um grande abraço, benção divinas a todos vocês! Muitas conquistas, glórias neste ano de 2019! Saúde, sorte, sucesso a todos nós! Muito, muito, muito obrigado Mariah! Muito, muito obrigado MMXCrossWorld! Estamos à disposição! Espero que vocês curtam e gostem dessa nossa emocionante e estressante, estressante para mim na verdade porque estou muito fora de forma e me emociono facilmente com as equipes e estou escrevendo um livro da minha história, autobiográfico e revendo muitas coisas e estou muito confuso e emotivo. Isso tudo só veio para somar! Podem ter certeza disso! Vocês podem ter certeza que estou muito feliz, muito bem graças a Deus, graças a meu poder superior! Hoje, posso ser considerado um atleta de Cristo! E de volta eu vou andando devagarzinho e me acomodando na moto com as minhas sequelas e com minha idade, mas tudo posso Naquele que me fortalece! Amém! Fiquem na paz do Senhor!

Reveja o Grand Prix da Argentina de 1988 quando Cássio fez sua primeira participação no Mundial e corria pela equipe Amauri/Yamaha com uma YZ 250cc e foi o melhor piloto Latino Americano classificado na 17a posição no geral.

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5 comentários em “Bate papo com Cássio ‘Espetacular’ Garcia – por onde anda?”

  1. Estou imensamente agradecido a Mariah, ao site MMX Cross Word por ter me dado esse espaço, para contar e relatar minha atual situação e voltar ao túnel do tempo.
    Ter a oportunidade de divulgaror e relatar um pouco dos problemas, das tribulações, das dificuldades que eu passei e da atual situação que eu me encontro.
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    A vida segue, a vida é linda e maravilhosa.
    Conto com a força de todos vocês, amantes, fãns, admiradores do nosso esporte preferido, que no meu caso é o motocross e supercross.
    Um grande abraço a todos.
    Muito obrigado Mariah pelo carinho, pela dedicação, por sua calma e sua boa vontade.
    Um grande e saudoso abraço.
    A paz do Senhor, já me considero um atleta de Cristo.🙏🙌❤️💥👣👣🏁🇧🇷✊✊

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  2. Muito obrigado pela entrevista e pelo o seu apoio e incentivo Mariah Morgado. Foram momentos de muita alegria e satisfação estar um pouco bastante sobre a minha vida e minha carreira profissional. Parabéns pela sua dedicação e atenção.👋👋💪💪🙏🙌❤️💥👣👣

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  3. Que show de matéria. Lembro de muitas destas passagens. Parabéns Cássio!! Continue firme no seu propósito e fazendo o que você ama. Você nasceu para vencer. Deus te abençoe sempre!!! Grande Abraço!!

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  4. Parabéns ao Site: MMXCrossWorld, bela matéria, parabéns aos amigos Argentinos, parabéns ao Cássio Garcia por nos proporcionar inúmeras boas adrenalinas vividas ao vivo nas arquibancadas, e hoje guardadas em nossas memorias, não a nada melhor que ler uma matéria dessas e ver um filme passando em nossas memorias, que época boa, relembrar e viver! #42 #25 #233 #1

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